sábado, 21 de junho de 2008

Géminis

Há um bom tempo o cinema argentino vem nos apresentando agradáveis surpresas. Sua trajetória histórica se parece um pouco com a do cinema brasileiro. Durante a década de 90 iniciaria sua retomada e adentraria o novo século no esquema de co-produções que garantiria sua participação nos principais festivais europeus. Claro que, assim como o oriental, o cinema latino-americano se torna alvo fácil daqueles que comprometem-se com os clichês e a exoticidade que garantem o selo de qualidade "estrangeiro", tão estimulante aos críticos europeus. Mas essa é uma outra conversa.
Trago aqui um parecer sobre um dos filmes argentinos mais interessantes que assisti durante os últimos anos: Géminis, terceiro longa-metragem de Albertina Carri (No Quiero Volver a Casa, Excursiones, Aurora, Barbi También Puede Estar Triste e Los Rubios). Géminis parte de um idéia complexo e indigesta - o incesto -, que ousa a princípio, imprimir no espectador um certo afastamento desse desvio, tornando-o pouco repudiável para, em seguida, despejar-nos toda a culpa que sentimos por sermos cúmplices dessa "anomalia". A medida que a enredo se desenrola, vislumbramos um núcleo familiar de classe alta com todas as suas aparências, recalques, superficialidades e ilusões de pacificidade. Lúcia, a mãe, é uma mulher controladora e chefe da família, convicta de que nada lhe foge dos olhos. A relação entre seus filhos, os irmão Jeremias e Meme, são intensas e carnais às escondidas, mas, quando voltam a ocupar seus espaços dentro da família, o fazem de forma natural e correta. A partir da segunda metade do filme, as câmeras se aproximam, a trilha sonora se intensifica, tornando o espectador cada vez mais cúmplice desse desvio (social, moral) e incomodados com a tragédia que se aproxima, numa das cenas mais atônitas que eu já presenciei. Destaque para Cristina Banegas (Lúcia) pela sua estupenda expressão diante do inimaginável.
Géminis tem recebido críticas muito antagônicas pelos entendidos do assunto, contudo, fujo aqui um pouca dessa missão para compartilhar uma interessante reflexão provocada pelo ato de assistir a um filme. Trata-se da capacidade inerente à ficção de nos provocar sensações. O que caracteriza uma ficção é o fato de ela não ser realidade mas sim imagens criativas e misturadas extraídas dessa realidade que passam a ser manipuladas e nos leva a múltiplas possibilidade de recombinação (a arte cria ou recria?). E, se essas imagens recombinadas de forma criativa produzem sensações humanas, é porque elas realmente são capazes de estimular uma característica exclusivamente humana que é a imaginação. A imaginação é a imagem mental que permite nos colocar em situações estranhas à realidade, ora se apresentando como um "espaço" confortável, ora como um lugar nauseante. E o cinema tem o potencial explosivo de quebrar tabus e recalques da sociedade em que se insere justamente por trazer ao seu público o inimaginável ou o obscurecido pelos valores dominantes.
Imagem 1: Albertina e seu instrumento de trabalho.

Imagem 2: Meme (Maria Abadi. Belíssima!) e ao fundo Ezequiel (Damián Ramonda), irmão mais velho de Meme e Jeremias (Lucas Escáriz).

4 comentários:

Anônimo disse...

ok, sem recriminações ... mas pq vc não aprofunda um pouco mais as idéias que apresenta? elas não me parecem apenas filosofismos... :)

não conheço quase nada do cinema argentino ... perdi a semana da cinemateca pq ainda não aprendi a chegar lá. hunf.

Anônimo disse...

entendo... e nem posso te recriminar pela preguiça pois sofro do mesmo mal :)

o endereço eu até achei. a dificuldade está em chegar no local apontado ... haha

não me recrimine por ser tão perdida.

Anônimo disse...

é que eu tenho medo de me perder e nunca mais voltar :)
mas vou procurar a tal portinha podre ... num dia que estiver mais corajosa ... quem sabe

Anônimo disse...

sem mais dicas então?

visse Persépolis (que ta dando no cineluz)? .. se não viu, veja, pq vale a pena, muito bom!