O cinema iraniano vem se apresentando ao público ocidental há pelo menos duas décadas. Sua projeção em festivais e retrospectivas tem despertado o interesse dos críticos e também dos entusiastas do cinema-arte que perambulam pelos circuitos alternativos. Nomes como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi são os primeiros que nos vem à cabeça e, de fato, são eles os maiores responsáveis pela inclusão dos filmes iranianos no cenário mundial, bem como pelo incentivo de uma produção nacional, a exemplo dos cursos de cinema oferecidos pela produtora de Mohsen. Ali se tem aulas de direção, produção e edição e alguns resultados positivos podem ser vislumbrados como "A Maçã" e "As Cinco da Tarde" de Samira Makhmalbaf, ambos premiados em festivais internacionais, consagrando a menina de, até então, 18 anos como a mais jovem diretora de cinema .Uma questão que se faz é se os filmes iranianos não seriam apresentados ao público ocidental como produto exótico e estimuladores de modismos. A pesquisadora Alessandra Meleiro, doutora em cinema e políticas culturais pela USP, autora do livro “O Novo Cinema Iraniano: Arte e Intervenção Social” responde ao jornalista Fernando Masini: "Concordo sim. Eu acho que ele veio como um produto exótico, assim como o cinema coreano e os jovens diretores japoneses estão chegando, e que de alguma maneira estão mostrando uma revitalização, uma oxigenação do que se vê na tela. Os festivais internacionais precisam desses modismos, não só os festivais, o sistema comercial como um todo também precisa dessas novas ondas. Mas a questão é se vai haver um esgotamento de tal forma que os festivais vão deixar de ter interesse e os co-financiadores vão passar a querer investir menos. Isso a gente só vai conseguir ver daqui a um tempo. Considerando a força que isso ganhou dentro do próprio país, ou seja, a importância que o cinema acabou adquirindo para a própria sociedade como bandeira política para se fazer discursos, acho que houve um fortalecimento interno. Além disso, uma legião de jovens diretores está sendo formada. Se você tem uma produção de qualidade e você cria produtores que sabem conhecer o mercado internacional inevitavelmente você vai conseguir emplacar o seu produto. Eu acho que é um movimento que se iniciou, que está jovem ainda, que veio por modismo, mas que já foram criadas condições de mercado".
Assim sendo, se há espaço no mercado cinematográfico para o cinema iraniano, a nós resta a satisfação de acompanhar a belíssima produção fílmica que provém do país, intimamente ligada a forte religiosidade que permea todos os âmbitos daquela sociedade. Não se pode falar em política, cultura e arte sem considerar o islamismo xiita e os entraves da censura em relação aos costumes e imagens registradas nos meios de comunicação.
Recomendo: Salve o Cinema (Mohsen Makhmalbaf) - filme metalinguístico que provoca uma reflexão acerca das posturas e gestos humanos diante das câmeras; A Maçã (Samira Makhmalbaf) - história de um pai que mantém presas as filhas em um cativeiro dentro de casa e revela uma enorme teia de preconceitos, fanatismo e jogos de poderes; Tartarugas Podem Voar (Bahman Ghobadi) - sobre a miserável situação dos curdos na fronteira entre Iraque e Irã dias antes da invasão norte-americana; O Círculo (Jafar Panahi) - visão feminina do cotidiano patriarcal do Irã; Gosto de Cereja (Abbas Kiarostami) - o drama de um homem que oferece uma razoável quantidade de dinheiro em troca de um trabalhinho macabro; O Balão Branco (Jafar Panahi) - drama de uma garotinha que perde o dinheiro que sua mãe lhe dera para um peixinho que tanto havia insistido em comprá-lo.
Imagem 1: Balão BrancoImagem 2: Salve o Cinema


